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Pobre Portugal…

Pobre Portugal…

Opinião de Victor Dias.

Somos uma nação com nove séculos de História e uma Cultura própria que se foi alicerçando numa língua que fez caminho e se autonomizou, para nos confirmar uma identidade única.

Riquezas naturais já não temos, a economia depende de quase tudo e muito pouco de nós próprios, e a nossa soberania continua hipotecada aos credores, em consequência de uma divida colossal que a cada dia que passa se agiganta mais do que o imaginário Adamastor.

O que nos resta então?

Resta-nos o património histórico-cultural, materializado em centenas de monumentos nacionais dispersos por todo o país e por alguns acervos documentais e espólios de tesouros artísticos, que fomos conseguindo pôr a salvo da cobiça alheia. Pese embora o estado de degradação e abandono a que deixamos chegar muitos deles.

A nossa dignidade de povo antigo, pode hoje ser afirmada, no respeito que temos por tudo aquilo que prova a nossa longevidade como nação estável nas suas fronteiras e Cultura.

Confesso que tenho alguma dificuldade em aceitar que se façam eventos sociais em monumentos nacionais, em nome da arrecadação de uns míseros trocos.

Mas não aceito de modo nenhum que se banalize, para não dizer, profane, um lugar de culto aos portugueses que são as nossas principais referências culturais e históricas.

Alguns dos nossos governantes, indignos da condição de portugueses, comportam-se como os vendilhões do Templo, revelando-se inaptos para a missão, tamanha é a sua incapacidade de alcançar o significado e a dimensão simbólica do Panteão Nacional.

A mercantilização daquele lugar, para comezainas de luxo, de gente que gosta de proporcionar sensações radicais num registo próprio do Cinema fantástico, condena a memória de um povo, a uma aviltante perda de sentido.

O que podem agora as famílias portuguesas dizer aos seus filhos, quando um dia quiserem levá-los a ver o Panteão Nacional? Ali estão os restos mortais dos grandes portugueses, escritores, artistas, navegadores, presidentes…. E ali, é  onde recolhem os “restos” de comida dos banquetes autorizados por despacho governamental…   

Se perdermos o respeito por nós próprios, se não nos damos ao respeito, como poderemos esperar que nos respeitem?    

 

Web Summit 2017

Na senda do mesmo posicionamento das autoridades portuguesas, está a forma como o governo de Portugal e a Câmara Municipal de Lisboa se ajoelharam diante o chorudo negócio da Web Summit, pondo ao seu dispor avultados meios logísticos.

Não contesto que este evento possa dar boa imagem internacional e traga a Lisboa muita gente.

Mas gostava que o Governo e a autarquia lisboeta fizessem bem as contas e nos dissessem quanto custa colocar à disposição deste negócio, um fortíssimo dispositivo de segurança totalmente assumido pela PSP, com centenas de efetivos fortemente armados e apetrechados das melhores tecnologias para controlo de pessoas?

Gostava também de saber quanto custaram todas as borlas que a Câmara da Capital deu à organização? E ao que sei foram imensas?

Pelo que pude perceber, de uma conversa que ouvi ao CO da Web Summit, Portugal é o parceiro ideal para o evento, não apenas pelas boas condições turísticas que ajudam a convencer os frequentadores a vir, mas sobretudo pela economia de custos, que noutros países teriam inevitavelmente outra contabilidade.

Fazer a Web Summit em Portugal é para a empresa irlandesa que organiza o evento, um verdadeiro negócio da China, a que acresce uma legião de jovens voluntários que trabalha para aquecer, a troco de um diploma eletrónico.

Enquanto o dinheiro dos nossos impostos se esbanja assim desta maneira, para dar palco a governantes e figuras públicas convidadas para fazer de biblot, a Web Summit fatura milhões, esmagando os custos ao mínimo, com a ajuda de todos nós contribuintes e, neste caso, voluntários à força.

Não discuto que o evento possa ser positivo para a reputação de Portugal, mas gostaria que alguém com responsabilidade fizesse as contas e tornasse tudo mensurável, para percebermos se valia a pena, ou não, fazer uma boa campanha internacional, alicerçada noutros pressupostos que promovessem melhor a imagem de Portugal e dos seus valores culturais e civilizacionais.

Admito que a realização da Web Summit se revele um investimento positivo para a imagem de Portugal no Mundo, mas enquanto cidadão e contribuinte, gostava que me demonstrassem isso mesmo, através de evidências que me convencessem.

Tenho dúvidas, muitas dúvidas, se o que investimos nisto terá o retorno que dizem.

Faz-me espécie que países situados em geografias com centralidades mais apetecíveis para a Web Summit, não se cheguem à frente para disputar o evento.

Estive lá e não nego que assisti a conferências interessantes, mas também pude testemunhar a forma hábil e muito competente, como se colocam multidões, dentro de ambientes de uma realidade virtual, digna da melhor ficção, que pede messas à realidade concreta de quem procura não tirar os pés do chão.

A gestão dos figurantes é primorosa, e mesmo nos momentos em que há menos pessoas inscritas nos eventos, nunca houve o risco de se verem plateias com clareiras, pois a afetação dos felizes contemplados com o prémio de um ingresso sorteado em cima da hora, garantia molduras humanas impressionantes. A Ciência da Web Summit está precisamente na utilização da mesma lógica da produção do “show-off”. 

De repente, percebi o quanto se mantém atual a visão platónica de um Mundo de sombras, no qual nos perdemos entre a vertigem da realidade e um cenário virtual de aparências.

Nesta era da transformação digital, em que o foco da tecnologia é estar ao serviço das pessoas, do seu bem-estar e até de uma Justiça mais eficiente, exige-se mais transparência e verdade a quem gere a coisa pública, para que se perceba com clareza se o que se investe tem o retorno pretendido.

23-Nov-2017 às 16:43, Ana Sofia Silva

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